X

Artigo

A + A -

Oratória Contemporânea: sua Aplicabilidade e Importância nos Dias de Hoje

16/08/2017 - Fonte: ESA/OABSP

Por: Maria do Carmo Carrasco

“A arte de falar em público – difícil entre todas – é talvez a que menos se estuda.” (Henri Maurice)

Dentre as qualificações profissionais, a capacidade de comunicar-se de forma eficaz apresenta-se como uma das principais características solicitadas nas grandes corporações. Falar bem, com segurança, elegância e naturalidade em qualquer situação é imprescindível.

A capacidade de comunicar-se preexiste nas mais diversas situações, sejam formais ou informais: palestras, vendas, entrevistas, liderança, reuniões, aulas, negociações, telemarketing, contatos sociais, treinamentos, discursos, tribunal do júri, sustentações orais, atendimentos clínicos, atendimentos terapêuticos e em todos os momentos da vida em que o processo comunicacional eficiente é fundamental.

Desta forma, pode-se afirmar que, a comunicação interindividual e a performance comunicacional eficaz são necessárias em todos os aspectos da vida – desde o profissional até o afetivo.

Assim, o aprimoramento do processo comunicativo é recomendado a todos que se interessam pelo desenvolvimento de sua comunicação pessoal e profissional, facilitando a formação do marketing pessoal e comunicacional, a utilização de linguagem ‘persuasiva’, comunicação não violenta, acolhimento diferenciado, negociação e influência de pessoas.

Um estudo bastante praticado e divulgado é sobre “Oratória”. Embasamento de fundamental importância para as tarefas de falar em público. O termo originou-se do  latim ‘oratoria’ e significa a arte de falar ao/em público. Esse termo é bastante antigo, e traz consigo outros dois termos: eloquência e retórica. Pode-se afirmar que a Oratória é a aplicação da teoria da retórica e os princípios da eloquência.

O termo eloquência deriva do latim eloquentia e refere-se à fala na sua dimensão prática. É a arte de falar e se exprimir com facilidade e naturalidade, com intenção de persuadir. A eloquência era, naquele tempo, instrumento de influência política e por isso, o conceito e seu treinamento prático expandiu-se rapidamente.

Já o termo retórica é originário do grego rhetorike e se refere ao conjunto de regras teóricas relativas à capacidade de eloquência, ou seja, é a arte de exprimir-se, de expressar-se pela palavra. Como disciplina, a retórica apresenta como um sistema das formas de pensamento e de linguagem que devem ser conscientemente utilizadas. A arte retórica mais renomada que se conhece é a de Aristóteles, publicada entre 384 a.C. e 322 a.C.

Até o século VI a.C., a arte de falar em público era considerada dom natural e privilégio de poucas pessoas. E na metade do século V a.C., a eloquência já era considerada uma capacidade que podia ser adquirida e desenvolvida por meio de estudo e treinamento.

O primeiro manual sobre a retórica (a “arte de discursar”) de que temos notícia surgiu em Siracusa, na Sicília, em 465 a.C.; os autores chamavam-se Córax e Tísias. Para Aristóteles, a retórica era a “arte de persuadir, através da palavra. Hoje o termo retórica foi banalizado, assumindo um sentido pejorativo, como normalmente utilizado pela imprensa, por exemplo, quando se refere às promessas de políticos, ‘como tudo não passa de retórica’.

Como os grandes oradores do passado tinham a necessidade de elaborar longas falas, para grandes audiências, instituíram a divisão do discurso proposta por Córax de Siracusa:

Exórdio – para chamar a atenção

Enunciação – apresentação da tese

Exposição – exposição das razões

Confirmação – repisamento das razões

Peroração ou Epílogo – fechamento do discurso

 

Demóstenes, foi considerado o maior orador da Antiguidade. Ele viveu em 384 a.C. Interessante comentar que ele é considerado um exemplo de empenho e dedicação. Demóstenes sempre foi considerado um homem de pouco gênio natural, e sua habilidade ao falar se deve ao trabalho e à diligência. Passou a ensaiar a voz e os gestos. Estudou com tamanha determinação que, para não sair de casa, raspou metade da cabeça.

Já no fim do século XIX, surgiram várias escolas de oratória, retórica e arte dramática com o objetivo de ensinar aos juristas, aos políticos e aos atores.

No princípio do século XXI, a velha retórica artificial começou a ser substituída pela tendência de utilizar princípios retóricos nas composições e no discurso, que se divide em três partes:

Exórdio ou início

Exposição ou meio

Peroração ou fim

No entanto, a retórica, além de persuadir, tem o objetivo de fazer a ordenação da fala nas suas diversas etapas, desde o início até a conclusão.

Embora alguns já tenham facilidade de expressar-se, de falar ao/em público, ordenar e delegar tarefas, negociar, participar de eventos e apresentações, todos podemos aprender com a oratória. E, tomando como referência as necessidades do homem moderno proponho o aprendizado da Oratória Contemporânea.

A Oratória Contemporânea (oratória + fonoaudiologia + visagismo + linguística + andragogia), tem sua origem nos estudos que me dediquei nos últimos 25 anos com a intersecção das ciências que contribuem para o aperfeiçoamento e aprimoramento do homem comunicativo.

Assim, segue informações relevantes sobre as ciências aqui utilizadas para compor a Oratória Contemporânea.

Desta forma, objetiva-se a aplicabilidade das premissas e regras da oratória tradicional, os estudos da retórica e eloquência atualizadas, tomando como referência o mundo contemporâneo e o homem nas suas diversas atribuições.

Já a aplicabilidade da Fonoaudiologia, ciência que se dedica a estudar a comunicação e seus distúrbios e que apresenta um arcabouço teórico-prático para o “bem falar e convencer”. Por esta ciência é possível realizar o aprimoramento e a mudança de comportamento comunicacional, por meio do uso correto dos aspectos comunicacionais: discurso (ordenação didática da informação), voz, dicção (articulação dos sons da fala), vocabulário (recursos e aspectos linguísticos), expressão e linguagem corporal (expressão facial, meneios de cabeça, gestos representativos e indicativos, movimentos dos olhos) e o saber ouvir e escutar, aspectos esses, que embalam a organização do discurso e informações.

O visagismo, palavra originária do francês 'visage' (rosto, em francês), foi formalizada no Brasil por Phillip Hallawel. Estudiosa desde 2007 e primeira Fonoaudióloga Visagista utilizo esta ferramenta para auxiliar no desenvolvimento da linguagem visual, a análise física do rosto, da personalidade e do comportamento para adequar a imagem e estilo pessoal, a indumentária, a linguagem verbal e não verbal em um processo integrado.

A Linguística, contribui com o estudo da fonética, estudo dos sons empregados; da sintaxe, estudo da combinação das palavras; da semântica, estudo dos sentidos das palavras e o que provoca no interlocutor; da pragmática, estudo das oralizações e análise do discurso. Com esse campo da linguística e da comunicação se objetiva de maneira prática a análise da construção do discurso, considerando contexto-histórico-social (ambiente corporativo) e condições de produção (cenário, situação, reação, comportamento etc).

E a Andragogia que é a arte e a ciência de ensino e aprendizagem de adultos, a qual tem como objetivo promover a mudança de comportamento e aquisição de competências técnicas. Por meio dessa metodologia é possível aplicar técnicas práticas e inovadoras.

Com a contribuição destas ciências e de outros temas recentes, como por exemplo, estudos da mediação, da gestão de conflitos, do Projeto de Negociação de Harvard, da comunicação não violenta (estudos de Marshall B. Rosenberg), expressividade e linguagem corporal (estudos de Paul Eckiman), dentre outras temáticas, é possível delinear de forma sistematizada a divisão do discurso em três partes facilitadas: introdução (acolhimento e preparação do ouvinte), desenvolvimento (conceituação e aplicabilidade) e conclusão (resumo e finalização).

A Introdução é o momento de acolhimento dos ouvintes e preparação da audiência. É o momento crucial para desenvolver uma primeira boa impressão. Neste momento demonstrar empatia e simpatia é fundamental. Para facilitar o começo pode-se realizar um cumprimento, um elogio sincero, demonstrar a satisfação de participar e falar sobre o tema proposto e realizar uma breve apresentação revelando a sua autoridade no assunto. Em seguida, é hora de sinalizar como pretende abordar o tema proposto, sua importância, demonstrando os tópicos e a sequência lógica que será utilizada. Para melhor divisão do conteúdo deve-se utilizar 15% do tempo para esta etapa.

Já o desenvolvimento do tema, é a fase de apresentação do assunto central, abordando sua conceituação e seus doutrinadores, autores, personalidades de referência. Deve-se ainda apresentar exemplos, cases, estatísticas e histórias vividas para auxiliar no convencimento e credibilidade sobre a temática abordada. Esta fase deve utilizar 75 % do tempo da exposição.

Sabendo-se que em momentos de exposição e participação pelos ouvintes, ocorre o aparecimento das perguntas e objeções, situação corriqueira e de fácil tratamento. Desta forma, o orador deve pensar nas possíveis perguntas e preparar as suas repostas. Em relação as objeções, o orador deve providenciar os argumentos e justificativas para adiantá-las durante a sua explanação, assim é possível mitigar o aparecimento destas intervenções que podem colocar o orador despreparado em situação constrangedora. Nesta medida, se pode contornar possível resistência por parte dos ouvintes, auxiliando no convencimento.

A Conclusão, assim como a introdução, apesar de utilizarem menor tempo na íntegra da exposição é um momento importante. Esta parte destina-se a reforçar os pontos principais do discurso por meio de uma breve recapitulação, ou seja, resumir o assunto, com vistas a fazer com que os ouvintes reflitam, aprimorem e/ou mudem o comportamento com base nas propostas do orador. É importante que o público compreenda o teor da mensagem e possa realizar a aplicabilidade imediata. O orador precisar utilizar nesta etapa 10% do tempo de exposição para realizar o fechamento do discurso.

No entanto, apresentar um discurso bem organizado e cheio de informações relevantes não é suficiente. É necessário embalar este discurso com o uso adequado dos aspectos comunicacionais: discurso (ordenação didática da informação), voz, dicção (articulação dos sons da fala), vocabulário (recursos e aspectos linguísticos), expressão e linguagem corporal (expressão facial, meneios de cabeça, gestos representativos e indicativos, movimentos dos olhos) e o saber ouvir e escutar.

Assim no próximo Artigo “A Importância dos Aspectos Comunicacionais no Discurso” abordarei técnicas e estratégias práticas para você envolver e contribuir verdadeiramente com a sua audiência

Até breve!!

Um grande abraço. Sucesso sempre!!

 

Fonte:

https://mccarrascocontemp.blogspot.com.br/

http://www.mariadocarmocarrasco.com.br/Blog1

Lgo Pólvora, 141 - Liberdade - SP  -  (11) 3346-6800  -   faleconosco@esa.oabsp.org.br


Praça da Sé, 385 - 6º, 7º, e 8º andar - (11) 3291.8100

Copyright © 2017 - OAB ESA. Todos os direitos reservados | By HKL